Sobre o Ateliê de Teatro

Juão Nin | 27 de Maio de 2015

POR UM TEATRO NÃO COLONIZADO(R)

Como posso eu, alfabetizado, escolarizado, formado, licenciado, viciado e condicionado, apresentar o teatro quanto linguagem para jovens, sem destruir o teatro imaginário e onírico que cada indivíduo já carrega?

Para seguir, preciso acreditar que ter consciência disso já é um grande princípio.
Potencializar o que há de fértil no outro, tentar não oprimir nenhuma individualidade são pensamentos que me assolam.
Cada vez mais gerar dúvidas para mim e para eles. Questionar, só assim seguiremos horizontalmente.

Na arte, motivo-me pela descoberta da identidade: quem sou? quem é cada um? Juntos, quem somos? São perguntas que nunca responderemos completamente, mas essa é a frustração positiva de criar. Serão sempre fragmentos e estágios. Não poderia ser diferente no teatro. No ateliê, sou dispositivo, impulso, ponte e nada além das provocações e estímulos estão pré programados, a decisão será sempre democrática. O que está em cheque são os indivíduos, o coletivo e o contexto como encruzilhada de uma possibilidade específica e única: O Teatro como encontro.
 
Montar textos consagrados apenas por serem clássicos, são desserviços da área quando acontecem apenas por mera reprodução de linguagem. A relevância dessa escolha só acontece quando existe a perspectiva de uma apropriação real e contextualizada, provocando o realizador e o espectador em instâncias sociais, políticas e/ou existenciais. Por isso, através do que negamos ou louvamos, descobrimo-nos, descobrimos os outros, descobrimos nossa casa, nosso bairro, nossa cidade, nosso país e nosso(s) mundo(s).  

Desse modo, como artista, parece realmente necessário ser um explorador, no sentido mais aventureiro e saudável da palavra, quando cai a ficha de que o mundo estabelecido, padronizado, burocratizado e repetitivo é funcional, mas cansa. Sobreviver torna-se o mínimo, a existência precisa de uma nova força motriz.
Como ver o mundo e se ver com outros olhos?
Resignificando.

Resignificar - foi o conceito base que convoquei na 1º aula. Sendo o abre-alas, ele veio com o intuito de representar o super-objetivo da Arte que escolho manifestar, do Teatro que carrego como bandeira.  Quando um simples guarda-chuva, uma bota e um cachecol viraram pranchas de surf, teclado, barco, chuveiro, telefone, microfone e outros diversos sentidos, percebi que tinhamos, nesse novo território, hasteado juntos e em consenso essa bandeira renovadora.

Só mudo o mundo, se eu mudar. Ser metamorfose ambulante não é tão fácil como cantar que é.
Só posso transformar um objeto em outra coisa se aquilo for realmente verdadeiro dentro de mim, para que o outro veja o que vi, e assim acredite, conecte-se. Assim será possível desdobrar o procedimento com a criação das personagens, alcançar a veracidade, modificar e dar novos sentidos ao corpo.

A arte forma o jovem quanto cidadão e indivíduo, mas raramente observo grupos avançarem por não conseguirem romper com a unilateralidade.  É a troca, o diálogo entre quem somos, e a arte que entendemos/fazemos, que expande quem seremos e a arte que queremos. Não pode haver hegemonia entre vida e arte.

Observo que os perfis dos alunos parecem mitos que se repetem desde quando comecei a ministrar aulas de teatro: alguns querem ser artistas, outros perder a timidez, enquanto também existem os que querem apenas (se) experimentar/conhecer. Todos eles precisam de espaço e reconhecimento.

Com o tempo, a técnica vai vir de qualquer maneira pra quem insistir. A técnica é construção da própria identidade. A técnica se conquista copiando, reformulando, repetindo, exercitando, ensaiando e disciplinando. A qualidade da execução cresce com a persistência em pesquisar, estudar, ler, observar. Mas e a essência? As analogias, a "malandragem" na capacidade de conectar pontos? Só permitindo-se é que somos esponja. Como desabrochar o sensível? Não há escola ou fórmula para acordar a subjetividade consciente.  E no fim das contas tudo pode ser resumido em: autonomia.
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Na arte não há dogmas.
Entretanto, obtenho respostas e mais perguntas na rebeldia.

É na desconstrução e na subversão, quanto conceitos linguísticos e em todas as possibilidades semânticas e poéticas que esses termos magnetizam, que propago a inquietude. Ambos os termos, unidos a resignificação, são a tríade ideal para gerar "estralos" no corpo pensante e criar labirintos ou atalhos internos cada vez mais prazerosos e sedutores que façam o mundo da pele pra dentro se ampliar e influenciar o de fora. São revoltas frutíferas.

Atento para estar sempre aberto, em troca constante para que as possíveis respostas sejam sempre questionáveis.

Jamais poderei chegar apenas com o teatro que acredito para construir corpos pensantes e críticos. Preciso me abrir para o teatro do outro, dar consciência ao teatro que já o habita. Confio numa sabedoria que inventei para ligar tudo que sei a tudo que me trouxerem. Junto à Adrielle Rezende, com quem coexisto harmonicamente, irei transpor cuidadosamente para o Jardim Romano o que aprendo e vivencio desde 2005 no Teatro.

O teatro como contra-cultura. Contra a tecnologia que individualiza negativamente, contra o emprego que maquinifica, contra a escola que limita, contra a religião que monopoliza, contra a cidade que velocifica, contra a família que desune e contra o amor que veta.

Que o teatro manifeste-se como um propulsor de infidáveis pesquisas, pois pesquisa como prática de (re)conhecimento gera intimidade com o estranho ou desconhecido e capacita estranhar o cotidiano e convencionado. E intimidade nunca será dominação. A busca será sempre incompleta. O inacabado fascina, alimenta a imaginação...


A tríade que tem regido a minha tentativa de unir cada vez mais pensamento e prática:

“O artista mais erra do que acerta” Berna Reale
“Eu posso errar” Clowns de Shakespeare
"Falhar melhor a cada dia” La Pocha Nostra

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