Diário do Espectador Nos Trilhos Abertos: Luciana Lyra

Coletivo Estopô Balaio | 13 de Novembro de 2017

Depoimento pela espectadora Luciana Lyra:

 

Por todos os lados e em ampla escala, o desmonte, a intolerância, o desrespeito, vejo a filósofa ser expulsa, o jornalista expor seu racismo, um cheiro de morte, um cansaço que chega a paralisar, dificulta respirar. Mas o que me incita o fôlego, me faz ficar de pé, é sair de casa e estar no teatro, o que me excita é que nos cantos de arte, há o grito, há resistência, há construção, o amor que se espraia e rogo que viralize.

Assim foi numa saída que fiz ontem, num canto que estive, um canto que ouvi de jovens e vivgorosxs atrizes e atores do Coletivo Estopô Balaio, um canto orquestrado pelo firme diretor João Júnior, ácido na medida do descaso que o gera, cuidadoso dos detalhes e do discurso de sua dramaturgia.

Assim foi minha experiência com a CARTA I - A INFÂNCIA (Promessa de mãe), montado por este diretor/dramaturgo e uma intensa equipe cheia de vozes e indignação. Na abertura desta carta, voltei ao canto do Brás, bairro que me acolheu nordestina na chegada a São Paulo. Na minha sala de aula de professora de arte, estavam os bolivianos e os brasileiros, sentados num mesmo campo de batalha, montequios, capuletos unidos por um mesmo latino amor.

No palco de ontem, ali estavam eles e elas, como se não tivessem passado mais de dez anos, ali estavam eles e elas, migrantes a bradar por estratégias que nos una como latinos, que nos façam ver o tio patinhas a mostrar novamente suas garras, até mais potentes do que na fase repressora que disse nosso saudoso Boal.

Longa vida e trilhos adiante para a cena que vi e partilhei, longa vida ao Erik e sua mãe boliviana, que hoje são também atuantes desse grande manifesto, longa vida ao estopô que se abriu à outridade como poucos. Sim, só saindo da senzala, só dirimindo as diferenças no campo de batalha, seguimos juntxs e juntxs avançamos na luta

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