A força de Dhiana D’água e seu Cabaret

Ramilla Souza | 25 de Junho de 2015

“A minha boneca se chama Dhiana D’água”, conta Edrellyn, 8 anos, pouco antes do início de mais um Cabaret D’água. Quantas crianças por aí batizam seus brinquedos, sob o olhar orgulhoso da mãe, com o nome de uma drag queen? A cena pode parecer inusitada para olhos externos, mas é absolutamente comum para os membros do Coletivo Estopô Balaio. O grupo foi o local de nascimento de Dhiana, que tomou forma no corpo do ator Bruno Fuziwara primeiro no Sarau do Peixe em 2013, depois em uma das cenas mais engraçadas do espetáculo “A cidade dos rios invisíveis” e, por último, no comando do Cabaret D’água.

Edrellyn, filha da atriz e produtora do Coletivo, Keli Andrade, é uma das poucas crianças que ainda tem a permissão de assistir ao evento, que acontece todo último sábado do mês. Com o aprofundamento dos temas e dos números, se viu a necessidade de vetar o espaço para menores de idade. No mesmo dia da declaração sobre o nome da boneca, era possível ver vários pequenos escalando muros para ver o que se passava dentro da sede do Coletivo.

Com um ano de idade, o Cabaret faz parte das ações culturais desenvolvidas no Projeto Enchente, do Coletivo Estopô Balaio, contemplado com o Prêmio de Fomento do Teatro Paulistano. Junto com o Sarau do Peixe, o Cine Varal Romano e os Ateliês de Criação, ele compõe as ações desenvolvidas no Jardim Romano pelo grupo.

O evento mudou muito desde o seu começo e vem se desenvolvendo cada vez mais. Da simples apresentação de números de drags, ele passou a ser um espaço de discussão de diversos temas no bairro do Jardim Romano e de números cada vez mais interessantes. Homo/transexualidade, direitos das mulheres, prostituição, entre outros, são debatidos em discussões e em números apresentados pelas drag queens. Também tem atraído convidados, entre os quais, o Coletivo Metaxis que, em maio, apresentou o trabalho “Cabaret Telmas”.

Mas, antes de tudo isso acontecer, primeiro foi preciso nascer Dhiana D’água.

 

O surgimento

Foi num Sarau do Peixe, promovido pelo Estopô Balaio, em 2013, que Dhiana ganhou vida. “Alguém disse pra eu me vestir de mulher. Coloquei uma peruca, um maio e uma saia. Daí, o Renato Carrera (diretor de teatro carioca) perguntou se ela tinha nome e sugeriu Dhiana D’água”, conta Bruno.  A brincadeira despertou alguma coisa no ator porque, desde então, os dois, Bruno e Dhiana, nunca mais se separaram.

“As pessoas dizem que eu não preciso forçar para parecer mulher. É um processo que flui naturalmente. Começa na roupa, na maquiagem e, daqui a pouco, já está, prevalece”, explica Bruno.

Desse primeiro momento até o surgimento do Cabaret passaram-se alguns meses. Foi só em junho de 2014 que o projeto estreou no mesmo local em que é apresentado hoje: a sede do Coletivo, no bairro do Jardim Romano (zona leste paulistana). A diferença dele para outros projetos do grupo é o fato de ter sido criado unicamente por artistas-moradores (hoje, conta com a participação dos artistas-estrangeiros Juão Nin e Ramilla Souza).

“O Cabaret é meu sonho realizado. Faz tempo que eu queria fazer um evento assim, só não me imaginava à frente. Me emociona muito ver a casa cheia”, conta Fuziwara. E tem estado cheia mesmo. Assim como as outras ações culturais do Estopô Balaio, o Cabaret D’água tem sido cada vez mais frequentado por jovens do Jardim Romano e de outros bairros da Zona Leste. As discussões e debates realizados a cada edição visam, sobretudo, atingir esse público. “Este é um espaço pra estas pessoas que são gays, bi, travestis, transexuais que são marginalizados pela sociedade e pela própria família”, explica Bruno.

 

Ser Drag Queen

Dhiana apareceu num momento de crise de Bruno Fuziwara com o teatro. Para ele, os dois começaram a reexistir um no outro. “Ela me completa e me faz caminhar todo dia. Esta é a força da Dhiana D’água”, explica.

Mas, Dhiana é personagem ou entidade? A pergunta paira no ar para aqueles que sabem que Fuziwara é umbandista e o quanto a religião influencia no seu processo artístico. “Eu sempre falo que ela é os dois. Porque eu acredito que ela seja uma entidade também. Como se fosse a figura de uma pomba-gira”, relata.

Independente do que seja, o que ela não quer é parar. O sonho de Dhiana, conta Bruno, é ter um espaço maior. Quem sabe um dia, o Cabaret D’água não se transfere para uma boate, ele se pergunta. “Agora em junho, completaremos um ano colocando amor e dinheiro aqui”, explica o ator-drag queen.

Junto com Dhiana D'água, também participam e produzem o Cabaret D'água, as drags Aura Angel, Maré Cachoeira, Sara, Sarita, MillyCrazy Boca-Doce, Cash Strass e Juana Queratina. O evento acontece todo último sábado do mês, a partir das 19h, na sede do Coletivo Estopô Balaio (Rua Adobe, 47, Jardim Romano). Para mais informações, curta a página http://facebook.com/coletivoestopobalaio

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