Ateliê de Memória e Narrativa: Dona Severina

Ramilla Souza | 16 de Novembro de 2015

Primeiro texto da nossa experiência com a escrita de cartas do Ateliê de Memória e Narrativa no Brás. Montamos nossa banca e oferecemos o serviço gratuito de escrita e envio de cartas para qualquer interessado. Nos apareceu Dona Severina.

Texto e foto por Ramilla Souza.

 

Existe dor no mundo. A gente se dá conta disso escrevendo uma carta, no meio da estação do Brás. Como um tapa forte. Ou como um sussurro. Existe dor no mundo.

Dona Severina me paralisou. Me entregou sua dor nas mãos. Quase como um presente. Eu trouxe pra casa, embalada e suave, carregando no estômago, no meu corpo pesado que só conseguiu dormir, nos meus olhos que choram, na minha consciência que grita que existe dor no mundo. E é tanta e tão grande.

"A gente carrega um filho nove meses e hoje faz nove meses que eu perdi o meu".

Ela escreveu uma carta pra filha, que vive no interior da Paraíba, sem ter muito o que dizer. Não havia nada a dizer. Existe amor, existe a perda entre nós, existe o encontro e eu não poderia falar nada para Dona Severina. Exceto, talvez, obrigada pelo presente.

Existe dor no mundo. Existe dor em mim. No meu corpo-lembrança de todos que já choraram.

Obrigada pelo presente.

 

 

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