Diário do espectador A Cidade dos Rios Invisíveis - Rafael Castro

Coletivo Estopô Balaio | 20 de Abril de 2017

Pelo viajante Rafael Castro

 

Imersão no Invisível

O que esperar...? Melhor nada. Mesmo sempre estando em estado de alerta, de quem espera por algo, cria expectativas, o melhor é não esperar nada. Ir de peito aberto, se permitir ao inimaginável e inquietante espetáculo humanizado e sensível que o Estopô Balaio desenvolveu.

E assim nos enchemos de coragem, entramos no vagão do trem, esperamos sua partida. Afinal tudo tem o seu tempo certo... Ao partir, quando somos orientados a colocar os fones de ouvido, entramos numa espécie de limbo, muito parecido com o que já vivemos no dia-a-dia e nos transportes públicos, quando nos fechamos na bolha de nós mesmos. E vem uma poesia, uma história e as coisas vão acontecendo, pessoas vão entrando como sempre entraram e desembarcando para seus destinos. Mas o nosso ainda não tinha chegado. E tudo num respeito muito grande, principalmente por parte dos nossos anfitriões, que não invadem o espaço de ninguém mais do que já se está habituado. É um cuidado.

Chegando ao Jardim Romano (ou Roman Garden que eu adorei a ironia), vemos um bairro/distrito periférico com seus moradores fazendo o que sempre fazem, mas os vemos de outra forma, como se fossem também atores e artistas de rua, o que realmente alguns acabam se revelando. E parece que entramos, imergimos num outro universo. Desconhecido, ignorado, descuidado, invisível. Descuido não pelos seus moradores, pois o bairro estava asseado, não se veem lixos nas ruas. Uma sujeira ou outra de cachorro, sim, mas onde não tem? E mesmo assim é mágico. Pessoas simples, acolhedoras, simpáticas, como peças de museu nos olham passar e se exibem escondendo certo acanhamento. Mas mesmo assim se misturam ao público e ajudam a contar esta história tão linda de suas próprias vidas e vivências.

Somos bem recepcionados, não só pelo grupo como por estas pessoas, que tem algo a dizer, e dizem! E um espetáculo com um sutil, porém, forte protesto contra a falta de consideração do governo acontece, e como o rio que levou uma parte da vida dessas pessoas, avançamos e somos levados por suas ruas, becos e terrenos. Emocionamos-nos com suas histórias, suas músicas, rimos com a suas ousadias e refletimos sobre a suas realidades. Eu não sei dizer, qual o momento mais me tocou, mas parece que foram todos. Estávamos entregues. A curiosidade de um repórter metropolitano, a sensibilidade tocada de um artista, a humanidade resgatada de um ser.
Como disseram na canção final: o rio é menino, é malandro... E justamente por isto precisa de cuidado ou ele faz suas artes. E infelizmente é nesta realidade, que ele é colocado como protagonista e suas águas o palco de um belíssimo, multicultural e emocionante espetáculo de vida destes seres incríveis. Mas que são invisibilizados, pela nossa cegueira ignorante de suas existências.

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