Diário do Espectador A Cidade dos Rios Invisíveis: Bruna Burkert

Coletivo Estopô Balaio | 31 de Maio de 2016

A viajante Bruna Burkert escreveu sobre A Cidade dos Rios Invisíveis para o blog Quarto Sinal:

 

Essa história, como outras tantas, pode ser contada de várias formas diferentes. No ano de 2009 durante pouco mais de três meses, a biografia dos moradores do Jardim Romano, zona leste de São Paulo, não foi mais do que tema de manchetes de jornais locais e de promessas de políticos. Durante esse período a comunidade esteve praticamente submersa pelas águas da enchente, causada, principalmente, pela proximidade com Córrego Três Pontes, do Rio Tietê. O episódio deixou pelo bairro muitas lembranças tristes de pessoas que perderam tudo o que tinham, porém hoje é lembrando também como uma espécie de aliança, que fortaleceu laços e criou um sentimento de irmandade muito forte entre os moradores.

É neste cenário, marcado por uma tragédia coletiva, e por uma comunidade já conformada com o descaso do qual foi submetida, que chega o teatro e a Cia Estopô Balaio no Jardim Romano, para resgatar a poesia daquela gente, e claro, para contar essa história.

Começamos longe dali, ainda na estação Bras da CPTM.   O grupo é acolhido pelos atores e embarca (literalmente) no mesmo vagão com destino a estação Jardim Romano. No caminho, através de fones de ouvido, é ofertada uma narração, que aparenta ter sido minuciosamente estudada. Oferece ao espectador informações sobre o caminho e até curiosidades, porém sem perder a essência poética do encontro.

Já no Jardim Romano, sempre usando de irreverência e muito dinamismo, o grupo é acompanhado pelos artistas pelas ruas do bairro.  São mais de três horas de espetáculo, que não são absolutamente sentidas. A cada esquina uma interação, uma informação e uma surpresa. São apresentados a cada ponto deste bairro pela ótica do coração de quem faz parte dele. Pouco a pouco as histórias são percebidas e fica claro que ali não é apenas a enchente que importa, mas tantas histórias que se mesclam e mostram que, embora vítima de tanto descaso, o Jardim Romano é um lar.

Logo fica claro que a maneira com que o espetáculo começa, nada mais é do que uma forma generosa que pretende pegar o expectador pela mão e transporta-lo até outra realidade. Não faria sentido contar a história daquela gente se não fosse naquele lugar. A criação de um propósito para que saiamos da região central da cidade e possamos descobrir que existe magia, arte e muito amor na periferia. Utiliza a linguagem artística para chamar atenção para uma realidade tão sofrida desses sobreviventes dessa batalha silenciosa que é a vida daquelas pessoas.  “A Cidade dos Rios Invisíveis” é um trabalho social repleto de valor artístico.

O jardim Romano e seus artistas acolhem, entretém, emocionam, mas acima de tudo, nos ensinam.

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