Diário de viagem - Holanda: Sobre a mobilidade urbana ou Como pintar ideologia no asfalto

João Junior | 21 de Agosto de 2016

Uma das primeiras coisas a se perceber na Holanda é que o principal veículo de locomoção dentro da cidade (e posso falar por Utrecht e Amaterdan que são as cidades que transitei) é a bicicleta. Tudo aqui é plano e o país tem pouca extensão territorial o que facilita bastante a locomoção ecologicamente correta. Mas, me surpreendi com uma coisa: talvez, assim como São Paulo, existe um caráter ideológico por trás de uma pratica de cidade que se dá também por este pensamento em relação a mobilidade urbana. Algo que está escamoteado e nas entrelinhas é que só pode ser revelado em São Paulo: a revolução bolivariana está tomando conta de tudo, pois as ciclovias aqui também são vermelhas. Saímos na frente, a grande imprensa paulistana, ao denunciar este golpe semiótico.

Me faz pensar que a grande maioria de seus leitores que só acham possível praticar uma cidade se não for a sua desta maneira quando dividem suas passagens à Europa, assim como seus carros, em suaves prestações ao longo do ano, vieram descobrir aqui este plano de expansão comunista. Esta classe média, arremedo da elite, com a auto-estima encarcerada nos grilhões da colonização, não quer que a cidade possa ser compartilhada. Assim como a Elite que lhe serve de inspiração burguesa e ideario imagético. Não pode se perder o privilégio de andar de carro na rua em detrimento de outros meios de locomoção. O carro ostenta uma vida caricaturada desta elite tb. Não interessa que a cidade não tem mais espaço pra construir estratégias de escoamento, que a cidade engoliu os rios, que a cidade cresce sem tempo de planejamento. Não interessa! O que interessa é tentar manter modelos de vida caricaturados a partir de um ideal de mundo "desenvolvido". Abaixo uma moradora de Utrecht nos explica porque as ciclovias são vermelhas.

À medida que saio pelo mundo, um novo mundo se aponta dentro de mim, consequentemente, novas perspectivas de Brasil. Mas, entendo cada vez mais de quais matérias somos feitos e embora exista uma tristeza e revolta com a história, tem no meu peito um espaço que se agiganta e sente que o Brasil tem muito o que dizer ao mundo. Da forma de se ver o outro, de pensar novos modos de relação e convivência. O mundo está precisando ciscar no quintal. Nós sabemos muito bem o que é o quintal. Peito aberto, cabeça pra frente e olho no olho. Não deixemos que a história nos amedronte. Somos lindos. Olhemos pra frente com a consciência do passado. Força e Luz nesta escuridão que estamos vivendo. Acendamos nossas velas em vigília para que outros possam acender as suas e nos iluminemos novamente.

João Junior

 

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Nosso diretor, João Junior, está na Holanda para ministrar a oficina A dramaturgia do Espaço Público na Escola de Verão do ICAFF (Festival Internacional de Arte e Comunidade de Rotterdam) na cidade de Utrecht. 

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