Teatro (do) Romano

Na plataforma lotada numa tarde de sábado, atores chamam para uma peça de teatro na estação Brás. "Gente, é no primeiro vagão", diz a atriz Ana Carolina Marinho. Não há cortinas nem palco: abrem-se as portas do trem.

Todos entram na composição já cheia. "Alguém quer deixar de ser passageiro e se tornar viajante?", perguntam os atores aos passageiros. Recebem olhares de estranhamento e dúvida.

Alguns aceitam e pegam um fone distribuído pela produção do espetáculo. Outros não ligam, resolvem ler, ou desligam e dormem no balanço quase maternal do trem.

A peça "Cidade dos Rios Invisíveis" está em cartaz na linha 12-safira da CPTM desde o meio de agosto. É assim: toda sexta, sábado e domingo a viagem começa no Brás, sempre às 14h, até dia 28.

O protagonista é o Jardim Romano, bairro pobre da zona leste de São Paulo, margeado por um braço do rio Tietê, e sofredor contumaz das enchentes do verão.

É o ponto final da peça, e onde tudo começou.O espetáculo é resultado do trabalho do coletivo "Estopô Balaio", que faz um projeto de teatro com moradores do bairro -dos 32 membros da peça, só oito não vivem na região.

Neste ano, o grupo ganhou um edital do governo do Estado e autorização da CPTM para encenar nos trens.
grande enchente

São várias as histórias narradas: moradores que perderam tudo na grande enchente que atingiu o bairro no fim de 2009. Na ocasião, o alagamento durou três meses.

"Eu ficava na janela de casa. Tudo alagado. Via amigos andando com a água no peito. Resolvi escrever sobre aquilo", conta a atriz Keli Andrade, 29, moradora do Jardim Romano. Seus textos fazem parte da encenação.

No fone, história de lugares que vão passando pelas janelas: Tatuapé, São Miguel, a favela da Tiquatira. Os atores fazem intervenções, conversam com os passageiros.

"Achei interessante, porque as viagens de trem são bem chatas normalmente", diz Alessandra Silva, 30, moradora de São Miguel.

Já no Jardim Romano, atores e plateia caminham sob o sol forte. Entram em bares, casas, açougue. Moradores se juntam à plateia.

"Na época de chuva, eu costumava me mudar para casa de parentes. Em 2009, não deu tempo. Perdi tudinho de uma hora pra outra", conta a doméstica Nídia Rocha, 36, assistindo a um show de rap que faz parte da peça.

O palco é uma laje. O público, na calçada, come tapioca com peixe servida pela produção. O show acaba e o tour recomeça pelas vielas.

PERFORMANCE

Dançarinos invadem a cena e fazem uma performance. Crianças dançam também. Vira uma festa nas ruas estreitas do Jardim Romano.

"Por causa das enchentes, a gente se ajuda muito, o bairro é uma família. Guardamos móveis, damos abrigo para vizinhos mais prejudicados, comida", diz a auxiliar de enfermagem Clarice Oliveira, 53.

Ela não tem vontade de se mudar. "Amo meu bairro, não saio daqui por nada. Apesar do rio, aqui é tudo de bom. E temos até teatro de rua", ri.

Desde que um piscinão foi construído em 2011, a região não tem sofrido com grandes alagamentos. No entanto, são muitas as casas ainda quase grudadas ao rio poluído.

"A enchente é um trauma no bairro. Foram anos de sofrimento e não é porque passou que vamos esquecer. É preciso contar", diz João Júnior, diretor do espetáculo.

O rio, quase preto, é o último cenário da peça/tour, que termina com poesia, música e aplausos.

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