Crítica Estopô Balaio no Esquina da Cultura

Estopô Balaio é uma expressão usada para designar quando você está prestes a explodir. É uma junção de sentimentos, angústias, dores, alegrias. Segundo alguns dicionários, pode até ser um xingamento. No bairro do Jardim Romano, na zona leste de São Paulo, no entanto, esta expressão ganhou outros ares. Conhecido por suas enchentes infindáveis, o local abriga o Coletivo Estopô Balaio, grupo de moradores que decidiu usar a arte para vencer os graves problemas do cotidiano.

Com esta história em mãos, o diretor gaúcho Cristiano Burlan transcendeu o simples relato e fez arte com seu documentário Estopô Balaio. Fugindo do estigma de que o Jardim Romano é apenas um bairro alagado no meio de São Paulo, o diretor entrou nas histórias como nunca antes. Ao invés de apenas frios relatos de enchentes, Burlan buscou entrar na vida de cada um do coletivo e de cada morador que respira arte. É um filme triste e melancólico, mas que ainda assim inspira.

Para conseguir isso, Burlan usou a câmera como uma mera observadora. Ao entrar na vida de cada um do Estopô, o diretor faz com que o espectador se sinta um convidado que está ouvindo as histórias. Em diversos momentos, senti que estava na sala de estar das pessoas, enquanto tomava uma xícara de café. É um tipo de filmagem impossível de ser reproduzida no cinema ficcional, de tão intimista e natural que ela é — assim como já visto nos ótimos Entreatos e Primárias, sobre política.

 

Para dar uma temperatura ainda melhor das artes no Jardim Romano, Burlan intercala as histórias com apresentações artísticas e imagens poéticas sobre o cotidiano do bairro paulista. Isso, além de um respiro nas histórias, também permite que o espectador perceba melhor a vida e a rotina de quem mora por ali — como delicadas cenas de crianças empinando pipa ou, simplesmente, brincando na rua.

No entanto, não são apenas elogios para o documentário de Burlan. Na ânsia de captar a maior quantidade de histórias, o diretor acaba diminuindo o impacto de sua obra. Ao invés de focar em algumas histórias de maior importância, ele acaba fazendo uma salada com tudo o que tem em mãos. Se ele tivesse se contido, talvez tivesse criado um relato muito mais forte, emocionante e impactante. Afinal, qualidade cinematográfica e boas histórias, sem dúvida, ele tinha.

No entanto, o erro das escolhas de Burlan, que tenta abraçar todo o Jardim Romano, não tira o brilho do filme. O longa-metragem, de quase 80 minutos, permite que o espectador entenda as dificuldade do bairro e, principalmente, quebre o preconceito que tem com o local. Entrar na história de vida das pessoas se torna um exercício pessoal muito interessante. Se você é morador de São Paulo, então, entenderá o quão multifacetada é a metrópole — e como ainda falta para tornar a cidade igual para todos.

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