Nos Trilhos Abertos de um Leste Migrante

“Nos Trilhos Abertos de um Leste Migrante”, é um projeto que envolve um tríptico, três histórias sobre sonhos, fugas e lembranças de Martha e seu filho Erik, Janaína, e do Sr. Vital, (i)migrantes que saíram da Bolívia, de Pernambuco e de Minas Gerais, respectivamente, para construir novas narrativas pessoais na cidade de São Paulo. São eles:

Carta 1 - A infância, promessa de mãe.

Carta 2 - A Vida Adulta, a mulher

Carta 3 - A velhice, o artista

Durante o processo de criação do espetáculo, o grupo se dispôs a escrever cartas na estação Brás da CPTM, para quem quisesse ou precisasse dessa escrita. Surpreendidos pela quantidade de boas histórias, separaram três delas. Foi ali que conheceram seus personagens, suas histórias e trajetórias (e desfechos).

 

Carta 1 - A infância, promessa de mãe

A “Carta 1 - A Infância, promessa de mãe” traz a história de Erik, filho de bolivianos. Já no Brasil, Martha, sua mãe, escreveu uma carta para seu pai (avô de Erik, que estava doente na Bolívia). Martha, com o desejo de rever seu pai na Bolívia, fez a promessa de não cortar o cabelo do filho pequeno enquanto não pudesse voltar ao seu país natal e rever seu pai, para que ele mesmo pudesse cortar o cabelo de Erik. Essa prática cultural boliviana - em que alguém mais velho corta o cabelo da criança e dá a ela um presente – não levava em conta as dificuldades financeiras de Martha voltar à Bolívia e o tempo passou, sem que ela conseguisse cumprir a promessa. O cabelo do menino alcançou um tamanho gigantesco, o que gerou problemas na escola, no bairro e na vida social do garoto.

Quando finalmente a mãe de Erik conseguiu voltar ao seu país com o menino, o avô de Erik não se achou à altura de cumprir a promessa e não cortou o cabelo do neto. Foi então que Erik teve a ideia de oferecer sua história para um programa da TV aberta: o cabelo imenso (media cerca de 1,20m) poderia resolver parte dos problemas financeiros da família. E assim foi que o garoto expôs sua história na TV e conseguiu reformar seu quarto.

A história de Erik se entrelaça com o jogo geopolítico existente entre os países da América Latina e suas relações comerciais, afetivas e de poder. De maneira bem humorada, Erik e Martha propõem uma reflexão sobre os problemas enfrentados pelos cidadãos latino-americanos: das promessas de lucro fácil (na imigração para o Brasil), à realidade da semi-escravidão do setor têxtil, tudo é demasiado real e cruel nessa relação de irmandade com os vizinhos brasileiros.

 

Carta 2 - A vida adulta, a mulher

A “Carta 2 - A vida adulta, a mulher" traz a história de Janaina. Nascida e crescida em Pernambuco, em Bonança, sofreu diversos tipos de abuso na infância. Aos 15 anos, foi entregue a um homem ao qual teve que chamar de marido. O sonho da festa de 15 anos, uma idade emblemática, foi interrompido pela transformação forçosa dessa menina em mulher.
Foram 18 anos de um relacionamento abusivo com seu “marido”. Janaina passou por vários tipos de violência - a mais frequente era a doméstica – mas chegou a apanhar dele até mesmo dentro do hospital onde estava internada por causa das surras que recebia.

Estimulada pelos seus dois filhos, Janaina se libertou do relacionamento e veio para São Paulo, com milhões de sonhos na mala. Há seis anos aqui, Janaina é uma das seguranças da estação central da CPTM, no Brás. A narrativa construída pelo Coletivo Estopô Balaio é refazer a festa de 15 anos que Janaína não teve, mas no local que ela escolheu para si: na própria estação de trens. É ali que o público verá a transformação de menina/mulher, mas em uma festa. A viagem, que parte da estação Brás com destino a Guaianases, é para buscar o bolo de aniversário, uma festa na estação do trem, para público/convidados.

 

Carta 3 - A velhice, o artista

A “Carta 3 - A velhice, o artista" conta a história de Sr. Vital. Nascido em Mariana (MG), na roça, saiu de lá em 1964, para tentar a sorte na famosa cidade de São Paulo. O destino profissional do Sr. Vital cruzou diversas metalúrgicas, em épocas que o sindicalismo era bastante forte, vivenciou lutas e os desdobramentos trabalhistas do período. Mas o sonho do Sr. Vital sempre foi tocar sanfona. E foi só na sua aposentadoria que um empréstimo bancário fez o sonho virar realidade. E hoje ele toca, toca por aí, pelo prazer de tocar. Já tocou inclusive com Chico César, sem sequer imaginar o tamanho da trajetória musical de seu parceiro.

O Sr. Vital se envolveu no assunto “cartas e Estopô Balaio” quando ofereceu sua música como ferramenta para encorajar os transeuntes da estação de trem do Brás a escreverem cartas, por meio dos integrantes do coletivo. Ele, que estava em processo de alfabetização, aproveitou o ensejo e se permitiu escrever cartas para os amigos.

Em cena, a história do Sr. Vital rememora seu passado de metalúrgico, sua infância e as privações da velhice. Partindo da estação Brás, com destino a Rio Grande da Serra, a partir das janelas do trem é possível ver muitas paisagens, como a de fábricas abandonadas e trens antigos, que revelam a mobilidade urbana dos anos 60. Os rios lameados que cortam o trajeto, remetem à sua infância, e provocam a pensar na cidade natal de Seu Vital, Mariana, e o Rio Doce, afogado pelo descaso dos homens que acham que são donos do rio. Nas inquietações sobre a velhice, o Sr. Vital questiona o confinamento dos idosos em asilos - privados de sua liberdade sobre essa escolha.

 

Foto: Andre Cherri

 

 

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