Jardim Romano

O Jardim Romano é zona de fronteira entre as cidades de Itaquaquecetuba e Guarulhos. Lá o tempo é esgarçado e é possível perdê-lo por entre os dedos. Lá o café na casa da vizinha não precisa ter hora marcada. Lá a rua é lugar de brincadeira. Lá a pipa rasga o céu e é rasgada pela linha cortante do outro menino que brinca com o vento. Lá, eu sou filho do rei assim como todos que ali praticam o lugar.

A cidade escondida ao longe sofreu durante dez anos com constantes alagamentos. Em sua memória social está a experiência constante da lida com as águas tortuosas que invadiram casas e ruas. A vida precisou ser recriada para que o corpo não pudesse sucumbir ao esquecimento, pois aquilo que não é visto não pode ser lembrado. E assim, a cidade vai se erguendo sob o medo e a revolta dos seus pequenos deuses.

A última enchente ocorrida no ano de 2010 deixou parte do bairro submerso durante três meses e foi preciso descobrir novas possibilidades de viver a partir desta condição. Uma questão ética atravessava o barco que nos guiava como um furo no casco que permite a invasão da água. Entre tirar a água do bote e remar seguimos, durante parte do nosso tempo, buscando compreender e elaborar esteticamente a ética de nossa viagem juntos. Sucumbiríamos às águas ou ganharíamos mais força no ato de remar e tirar água do bote? Só o tempo poderia nos provar.